
É, não tinha jeito, eu teria mesmo que escrever sobre o assunto, já que não consigo ficar calado perante o festival de bobagens que tomou conta do país durante os (para nós) 20 e poucos dias de Copa do Mundo.
Em primeiro lugar, a teoria da conspiração. Ah, a boa e velha tirada "eu já sabia que tudo era uma máfia!" Quem não gosta de uma boa conspiração? Nosso expoente da vez é o jornalista
Juca Kfouri, descrevendo em detalhes o porquê de a FIFA não querer que o Brasil fosse hexa: medo do octa. Utilizando uma lógica aterradora, de que o Brasil ganhou vários títulos em países sem expressão no futebol, e portanto ganharia na África do Sul também (nem estamos classificados ainda! Vai que pegamos uma geração como aquela de 87 a 93, quando apanhávamos do Chile por 4x0?), e sendo que a Copa será no Brasil em 2014, o octa seria favas contadas, e a entidade controladora do futebol mundial gostaria de evitar a monotonia nos seus ricos campeonatos. Para conseguir tal objetivo, a FIFA manipularia as arbitragens para que, em caso de dúvida, apitassem contra o Brasil. Onde será que fica a teoria agora, quando o que se viu nessa Copa foi juiz ajudando o Brasil? Contra Gana, marcamos um (talvez 2?) gol(s) em impedimento, contra a França tivemos um pênalti de Ronaldo na barreira, que o juiz marcou fora, e uma falta criminosa do monocelha Lúcio no qual ele só deu um cartãozinho amarelo. Acorda, pessoal! Lee Harvey Oswald matou Kennedy, Elvis não está vivo e morando na Noruega, e o Brasil não vendeu nada, tomou sim um baile de bola da França, tanto em 98, quanto em 2006.
Em segundo lugar, temos os teóricos do entreguismo. Estes são predominantes nos comentários dos blogs sobre esporte, onde desfilam suas inúmeras teorias "plausíveis" sobre o Brasil novamente ter vendido a Copa para a Nike, tal qual em 98. A França é patrocinada pela Adidas (tal qual em 98), assim como a Alemanha. Dos 4 semifinalistas, apenas Portugal é patrocinado pela Nike. Logo, faz total e absoluto sentido a empresa americana ter comprado do Brasil a Copa do Mundo nas duas ocasiões, para dá-la de presente a seus maiores adversários. Como eu não percebi isso antes!?
E a mídia esportiva? Melhor do que assistir um bando de analfabetos correndo atrás de uma bola por 90 minutos, é assistir o bando de asnos (com raríssimas exceções) que fica comentando os jogos antes e depois. Para mim, todos os comentaristas de futebol deveriam ser exterminados. Gente que ganha a vida assistindo futebol deveria pelo menos entender um pouco do assunto. Pois mesmo sem entender lhufas do nobre esporte bretão, eu consegui extrair tudo o que se diz nestes programas:
- Futebol não se joga pelo meio. As equipes modernas congestionam o meio com uma linha de (X) zagueiros, portanto, o jeito mais fácil de chegar ao gol é abrir o jogo pelas laterais do campo, para chegar à linha de fundo e cruzar na área, o que pega os atacantes de frente e a defesa de lado.
- Se uma equipe congestiona também as laterais, a solução óbvia é jogar pelo meio, com os atacantes se aproximando para fazer "UM-DOIS", ou "TABELAS RÁPIDAS", ou "TRIANGULAÇÕES". Também o atacante principal pode fazer um pivô, para ajeitar as bolas pra quem vem de trás (frasezinha de duplo sentido essa hein? repararam? repararam?).
- Contra equipes que fazem linha de impedimento, deve-se fazer lançamentos nas diagonais, para os atacantes entrarem por trás da zaga (acho que esse pessoal anda vendo muito
Deliverance) e aparecerem livres na cara do gol.
- Um time não vive só de ataque, portanto tem que se compactar, atacando e defendendo em bloco.
Pois bem, sabendo esses quatro clichês essenciais, você pode enganar qualquer comentarista desses ou mesmo conversar em igualdade de condições com essas máquinas de utilizar chavões. Por isto sou a favor da exterminação de todos os críticos de futebol, e sua substituição por gravações do Sérgio Noronha repetindo as mesmas coisas over and over again. Noronha? Exterminado. Casagrande? Exterminado. Trajano, Kfouri? Exterminado, exterminado.
E por último, mas não menos importante, temos o bom e velho povo brasileiro. A mesma choldra que dá 49% de intenções de voto a Lula, que comenta "Vou votar nele e em quem ele indicar!!!" nos blogs de política, que afirma piamente que a França "compra todos os jogos de que participa" e "esta Copa será marcada como a Copa do dinheiro francês" nos blogs de esporte. Aliás, diga-se de passagem que, se você quer descobrir quem é o brasileiro de verdade, vá nos blogs mais populares dos jornalistas dos grupos Folha e UOL, e delicie-se com os comentários. Gente que acha Soninha e Juca Kfouri exemplos de inteligência e pontas-de-lança do ataque do povo "contra tudo o que está aí", que glorifica Scolari agora, mas até o jogo das quartas-de-final de 2002 pedia o idoso Romário e chamava o técnico gaúcho de burro; que "sabia" que escalar o Ronaldinho no ataque ia resolver o problema, que esqueceu que Parreira (por mais teimoso e apático que seja) foi quem tirou o Brasil de 24 anos de fila de Copa do Mundo; idiotas que sugerem a "CPI do Parreira" e a imediata quebra de sigilo bancário do treinador; a massa que fica indignada quando o francês Henry (um enganador, do nível do Washington do Atlético Paranaense, segundo um comentarista da ESPN Brasil) diz que as crianças do Brasil não vão a escola, por isso jogam tão bem futebol. Quem sabe se agora a gente entra em outro jejum de 24 anos, e o povo resolva trabalhar tão bem quanto na década de 70 (quando crescíamos a 10% ao ano), que, por coincidência ou não, foi um período no qual o Brasil levou ferro em várias Copas.
Jejum, já!