
Vez por outra, em algum jornal da Rede Globo, vejo uma reportagem exaltando o sucesso de algum dos inúmeros projetos do programa Criança Esperança para tirar os menores da rua.
Louvável, é claro, mas apesar da quantidade enorme de projetos, não há nenhuma novidade em relação aos currículos; é sempre uma oficina de vôlei, futebol, tênis (nos projetos moderninhos), hip-hop ou algum tipo genérico de batuque. E após mostrados alguns detalhes, sempre vem algum elogio do tipo "o hip-hop está tirando as crianças da rua", "em vez de estar na rua, os meninos agora aprendem a jogar tênis".
Mas de que adianta tirar as crianças da rua para transformá-las em esportistas fracassadas? Não importa o quão boa uma menina é no vôlei, se algum dia ela chegar à seleção brasileira, estará condenada a perder pra Cuba em uma semifinal de qualquer jeito. Ou então, transformar os garotos em dançarinos e letristas de hip-hop. Realmente queremos outros Racionais MCs no futuro?
Para sanar este problema, quando eu for o líder supremo, desativarei todas as oficinas de esporte, hip-hop e pagode, e as substituirei por oficinas de ciências. Sociais, econômicas, exatas, não importa, serão ciências, e um relato de sucesso poderia ser:
- Vamos falar com a repórter Luciana Vilela para uma matéria sobre como mais um projeto do Criança Esperança está tirando as crianças das ruas. Luciana?
- Bem Fátima, estamos aqui no Centro Social Líder Supremo, no bairro da Tijuca, no Rio de Janeiro, onde a professora Lindalva está revolucionando a vida social da comunidade, fornecendo Oficinas de Trigonometria para todas as crianças carentes do bairro. Professora, a senhora poderia falar mais sobre o assunto?
- Claro. Durante muito tempo as crianças vinham aqui pra dançar, fazer música, pintar ou jogar vôlei. Mas aí, dentro do programa estabelecido pelo líder, resolvemos implantar uma oficina de Trigonometria para as crianças da comunidade. Elas vêm aqui depois da escola e passam o dia inteiro calculando senos, cossenos e tangentes, e além disso ganham merenda e um caderno milimetrado para desenhar os triângulos todos. E aprendem poesia também!
(vira para as crianças, enfileiradas atrás dela)
- Vamos lá crianças!
(coro infantil declamando um Gonçalves Dias adaptado em voz muito alta:)
MINHA TERRA TEM PALMEIRAS,
ONDE CANTA O SABIÁ!
SENO A COSSENO B,
SENO B COSSENO A!
- Muito bem professora! Vamos falar agora com a Joilma, que tem 9 anos e está na oficina a três meses. Joilma, o que você gosta de fazer aqui?
- Eu gosto do lanche...
- E que mais?
(professora cochicha no ouvido)
- EU GOSTO DE CALCULÁ AS COSSECANTE!
- Vamos ouvir também a Marinete, de 7 anos:
- A GENTE COME A MERENDA E BRINCA DE BAMBOLÊ COM O ARCO TRIGONOMÉTRICO!
- Muito bonito, professora! Agora, o caso mais emblemático é o do jovem Geneval, de 15 anos, com 134 passagens pela polícia por roubo, furto, falsidade ideológica, agressão, estupro, tentativa de estupro e crime do colarinho branco. Ele está na oficina há 1 semana, vamos ouvir o que ele tem a dizer:
- Bem, eu vivia na rua né? pensava só em estrupá as mulhé e roubá os prayboy, mas agora, (nó na garganta, cara de choro), agora eu consigo calcular seno, cosseno e tangente de cabeça (chorando) e nem preciso mais roubar ou matar!
- Eu sou Luciana Vilela, do Centro Social Líder Supremo para o Jornal Hoje. É com você, Fátima.
- Na próxima semana, você vai ver como a programação em assembler do processador Z80 está tirando as crianças da rua no Morro do Cantagalo, e ajudando a comunidade a ter um futuro melhor.