8:30 da manhã do dia 15 de março de 2005.
Adentro o edifício do Tribunal Regional Eleitoral do Amazonas, procurando por informações sobre como transferir meu título para cá. Prédio bonito, moderno, luxuoso. Sou atendido por um funcionário bem educado que me encaminha para a sala correta, depois de analisar minha fatura de cartão de crédito e decidir que sim, ela pode ser usada como comprovante de residência.
Sala impecável, com vários atendentes, cadeiras confortáveis, ar-condicionado a todo o vapor, a fila anda rápido. Em menos de 10 minutos estou com a documentação na mão para pagar os nababescos R$ 7,02 por ter dado o cano em duas eleições anteriores. Pago a fatura em um caixa eletrônico, pego o comprovante, volto para a sala anterior, sem precisar entrar na fila novamente. O atendente me pede para aguardar um momento enquanto imprime os dados do meu novo título.
Por cerca de 5 minutos, enquanto esperava, pensamentos otimistas saracoteavam por minha cabeça cheia de gel e esperanças: "nossa, parece que estou na Europa, resolvi tudo em 25 minutos!", "será que o Brasil tem jeito com iniciativas como esta?", "mas o que aquela mulher estava pensando quando decidiu sair de casa para tirar o título vestida como uma rameira do século XIX?"...
- Senhor!
- ...
-
SENHOR!- Ah sim, pois não.
- Seu protocolo. Por favor vá para a sala B e seu título lhe será entregue em 15 minutos.
Ainda maravilhado, segui para a sala B imaginando nível de sofisticação tal que os títulos chegariam por um "tituloduto" direto às suas mãos, sem que você se levantasse da cadeira ou que a chegada dele atrapalhasse sua refeição com Moet Chandon e caviar de legítimos esturjões russos.
Cheguei à tal sala B, onde me decepcionei. Cerca de 80 pessoas se acotovelavam, com seus cabelos pintados de louro-ferrugem, seus meninos chorando e soltando substâncias gelatinosas pelo nariz; ar-condicionado estragado, um calor senegalês e, em vez do tituloduto, um funcionário de trajes estranhos berrava um nome após o outro para que seus donos se aproximassem para pegar o documento; e os nomes... ah... os nomes.
Em poucos minutos, minhas esperanças européias foram minadas por um festival de Joseneides, Robedilsons, Meires Leidivanes, Lyndon Johnsons De Oliveira (e aí presidente, e essa guerra do Vietnã hein?), Mixons, Gleices Kellys e Walciléias que dançavam de forma endiabrada, sobre um fundo psicodélico fortemente vermelho, enquanto Comfortably Numb tocava ao fundo e letras garrafais em brasa viajavam bem em frente aos meus olhos. De repente, o fundo ficou fortemente laranja, e eu não entendia o que estava acontecendo, então respirei fundo e finalmente vi o que tinha me tirado da viagem: um sujeito chamado Orange. Sim. Um cara. Orange era o seu nome. Não era "Órange", era "Orânge".
Por sorte, meu nome era o próximo. Daniel. Daniel Rocha. Pude ver em cada uma das faces presentes um olhar de pena acompanhado de pensamentos "Nossa, mas quem será a mãe deste menino, para ter dado um nome desses pra ele?". Peguei meu título e saí.
Vou escrever uma carta ao governo, reclamando desse luxo indevido em repartições públicas. Computadores, ar-condicionado funcionando e filas rápidas devem ser mesmo exclusividade de empresas privadas. O Orânge não liga mesmo para essas coisas.