Com a vivência adquirida em inúmeras mesas de inúmeros bares em inúmeras cidades (na verdade, mais precisamente em Belo Horizonte e especialmente no Rio), meus amigos e eu notamos que, na hora clássica e dolorosa de pagar a conta, algumas pessoas usam de truques bastante brasileiros (que são espertos e não desistem nunca) na tentativa desesperada de escapar da sangria no bolso. Tais truques são batizados com o nome do autor, transformado em verbo.
Obs.: O autor é identificado quando possível.
Buenar: O Bueno é aquele cara singular. Normalmente é gerente de TI, daqueles que falam pelos cotovelos e são amigos de todo mundo. Quando são convidados para um almoço ou chopp, são os primeiros a aceitar, e os últimos a sair da mesa. Se você não prestar atenção, acaba deixando o Bueno passar como um gente boa normal; por isso, você precisa prestar total atenção no detalhe que distingue um Bueno de um gente boa: RECLAMAÇÃO. Sim, um Bueno só é gente boa até cerca de 60% do chopp ou almoço estar completado. Após esse milestone, ele começa a reclamar do copo, do chopp, dos garçons, da mesa, do tiragosto, do chão, dos banheiros, até culminar com a reclamação fatal,
coincidentemente na hora em que a conta chega:
AGORA SÓ FALTA NÃO ACEITAR CARTÃO SOLLO NESTA ESPELUNCA! Se você deixou chegar nesse ponto, perdeu playboy, pois ele escapou de pagar, e você vai ter que dividir a parte dele com seus outros amigos.
Como se defender: Para se livrar de uma Buenada, você tem que clonar a tática dele: assim que a conta chegar e ele reclamar da não-aceitação do cartão Sollo, você deve *imediatamente* sacar de sua carteira seu cartão mais chinfrim e gritar: NÃO É POSSÍVEL QUE TAMBÉM NÃO ACEITAM CARTÃO CARREFOUR!
Renatear: Renato é um cara discreto, não é do tipo "gosto de levar vantagem em tudo", mas vai tentar levar vantagem
em alguma coisa pelo menos. Talvez a renateada seja a tática mais difícil de identificar, especialmente em mesas grandes onde você não ouve muito bem o que está acontecendo do outro lado. Ela consiste no seguinte: o Renato come, bebe, sem exagerar, pois afinal ele pretende de coração pagar a sua parte, e não quer encarecê-la. Conversa, conta piadas, é sociável. No entanto, quando percebe que todos estão satisfeitos, ele aplica a sua tática mortal: chama o garçom discretamente pede uma sobremesa, normalmente a mais cara, que obviamente será renateada entre todos, ou seja, ele conseguiu uma sobremesa por 1/(numero de comensais) do preço total. É a tática mais usada atualmente, por sua fácil aplicação e por se aproveitar geralmente de mesas grandes para seu uso.
Como se defender: O renateamento é igual ao Golpe da Águia, do ilustre Karate Kid: se bem aplicado, não há defesa. A única solução é defenestrar a aplicação do golpe, valendo-se da seguinte tática: assim que você notar que está sendo vítima de um renateamento, comece a gritar: QUEM QUER SOBREMESA? EU VOU QUERER UMA TAMBÉM, PODE TRAZER PRA MIM! Não há como errar, pois mesmo se ninguém mais quiser sobremesa, a sua vai sair praticamente de graça também.
Leticiar: Letícias são doidas. Ponto. Nunca conheci uma Letícia que batesse bem da bola. Mas na hora de pagar a conta elas são bastante sãs, até demais, tanto que desenvolveram duas táticas diferentes para escapar: a
leticiada a priori e a
leticiada a posteriori. Na primeira, a leticiadora percebe que na mesa só há mãos-de-vaca na mesa, e imediatamente quando a conta chega, calcula sua parte (obviamente, menor do que deveria), joga o dinheiro na mesa, diz tchau para todos e VAZA. É rápido e mortal. Na segunda técnica de leticiar, a posteriori, ela percebe que só há gente mão aberta na mesa, então ela espera o máximo possível, até de preferência quando todos já colocaram suas partes na mesa, e então complementa o que restou (normalmente menos de R$10,00, embora elas tenham consumido R$35,00).
Como se defender: Defender uma leticiada requer muito skill e atenção. Quando o golpe for a priori, deve-se ou jogar imediatamente na mesa a mesma quantidade de dinheiro, e além disso, vazar junto com a Letícia da vez (se conseguir ainda pegá-la na saída e dar uns beijos, isso conta como um
combo counter attack + added bonus). Para defender uma leticiada a posteriori, você precisa usar uma
danilada, descrita logo a seguir.
Danilar: Criado e continuamente desenvolvido por
Danilo Medeiros, a danilada é um dos golpes mais sofisticados para não se pagar uma conta, inclusive requerendo um bom naco de habilidade manual e prestidigitação. Consiste em ser gente boa, beber e comer normalmente, pedir alguma coisa gay com alho poró, pedir aquela sobremesa, contar histórias das viagens para a Ásia, enfim, comportar-se quase que normalmente até a chegada da maldita. Com a conta na mesa, o Danilo é o primeiro a pegar a nota e fazer a divisão justa entre todos, requerendo que cada um deposite a sua parte sobre a mesa, parte esta que ele mesmo calculou. Vale ressaltar que uma danilada só funcionará se alguém for pagar com cartão de crédito, pois esta premissa é justamente o coração do golpe. Assim que todos depositam o dinheiro sobre a mesa, Danilo pega e dá uma mexida no bolo, como se estivesse depositando dinheiro mas na verdade está apenas remexendo nele (aqui é necessária uma habilidade manual digna de um mágico de rua). Em casos extremos de danilada, o aplicador poderá não só não pagar como RETIRAR dinheiro do bolo, portanto é bom ficar atento à defesa para não se estrepar.
Como se defender: As regras são simples: 1) Não pague com cartão de crédito. 2) Se for pagar com cartão, VERIFIQUE o total na sua fatura! Se for R$69,20 em vez dos R$29,00 esperados, GRITE, pois você está sendo vítima de uma danilada. Isso fará com que o golpista dê aquele sorriso amarelo e se entregue: "Oh, foi mal, esqueci de pagar, quanto foi a minha parte?".
Danielar (ou Ceiozar, dependendo do estado): Criado e aplicado por
Daniel Rocha (eu), tem sido usado com sucesso em 5 estados da federação: AL, AM, MG, RJ e SC. É um truque simples, rápido e mortal, com alta taxa de eficiência mas tem um defeito: não há sucesso parcial, é 8 ou 80. Consiste em contar continuamente histórias de assalto da família, justificando com estas a incrível mania de não andar com dinheiro no bolso, sob a desculpa de manter a segurança pessoal. O segredo está em mencionar que não se tem dinheiro algum apenas no momento da chegada da conta, NUNCA quando estão se dirigindo ao local. Assim que a conta chega, tira-se alegremente o cartão Visa Electron do bolso e pergunta: aqui aceita débito, não? Como o inventor só anda em bares de segunda categoria, a resposta muitas das vezes é "não", então os acompanhantes pagam e o Daniel da vez faz aquela cara de falso constrangimento enquanto diz "beleza, vou ali no banco tirar dinheiro e já pago vocês", o que é obviamente, mentira.
Como se defender: Só leve pessoas que aplicam a danielada em lugares que aceitam débito automático. Isso defende o golpe primário, mas vocês precisam ficar muito atentos à tentativa de combo attack: quando acuado por um estabelecimento que aceita Visa Electron, Daniel poderá tirar o dinheiro da carteira em notas de R$100,00, e pedir a você que pague pois ele não tem dinheiro trocado. Há duas saídas para esta variante: andar com dinheiro trocado e matar as chances do golpista, ou desferir um golpe mais dolorido: "Beleza, então você paga pra mim que depois eu te reembolso". Isto costuma deixar um Daniel muito, muito mau-humorado.
Claudiar: Inventado por
Claudio Salvio, designer belorizontino, é o famoso golpe do "não vou beber hoje". Ele senta com você (sabendo que você e seus amigos são mãos abertas, apesar de pobres), toma um ou dois copos de cerveja. Logo após o segundo copo, toda vez que você tenta completar o copo de cerveja do rapaz, ele põe a mão em cima e fala "não,não,não,não,não,não", como se já tivesse parado de beber. Aí você, gente boa, fala "argh, que nada", e ele libera o copo para completar o tanque. Na hora em que a conta chega, ele continua contando histórias engraçadas sobre clubes de futebol ou sua faculdade de Artes Plásticas, enquanto os outros pagam a conta sozinhos.
Como se defender: Não há necessidade de defesa contra uma claudiada, pois normalmente o total do prejuízo é pequeno e vale a companhia.