Eis que outro dia, estava eu indo da portaria para a garagem 2 do meu prédio buscar meu carro, quando, ao entrar no elevador, dou de cara com uma das figuras mais pitorescas da sociedade carioca: Miele.
Adentrei o elevador, cumprimentei o simpático apresentador (notando que sua aparência física equivalia à de uma pessoa de 210 anos de idade) e sua não tão simpática esposa. Não precisei apertar o botão G2, pois o carro deles estava na mesma garagem que o meu. É uma descida curta, cerca de 10 segundos apenas, mas foram 10 segundos bastante prolíficos para o Miele, que tirou 3 piadas rápidas da cartola e emendou uma na outra, sem tirar de dentro. Se isto fosse tênis, ele seria um "piadista de saque-e-voleio": saca uma piada a 200km com muito top-spin, corre pra rede e mata o ponto com uma piada voleada firme, fundo, em cima da linha e no contra-pé do adversário, para então receber os aplausos do público. Quase entrando no clima, eu iria fazer um comentário sobre a sua hilária queda da sacada de seu apartamento em São Conrado meses antes, mas preferi me abster de tal comentário devido à cara de poucos amigos da sua esposa. Cumprimentei-os e fui buscar meu carro, afinal, a vida é mais do que ficar ouvindo piadas.
Miele tinha ido visitar seu amigo decadente em um condomínio igualmente decadente na Barra da Tijuca, e como sempre, acabou bebendo demais. Estávamos no elevador, indo para a garagem buscar o carro quando, no andar térreo, um rapaz entrou e nos cumprimentou. Ele não precisou apertar o botão G2, pois seu carro estava na mesma garagem que o nosso. É uma descida curta, cerca de 10 segundos apenas, mas foram 10 segundos bastante prolíficos para esta múmia de 210 anos que eu chamo de meu marido começar pela enésima vez seu festival de piadas idiotas com as quais vem "animando" nosso casamento há mais de 20 anos. Se isto fosse tênis, ele seria aquele piadista argentino de saibro, que fica jogando um joguinho modorrento por mais de 5 horas sob um sol senegalês para, no final, perder. O rapaz sorriu por educação, como todos fazem sempre. Eu iria fazer um comentário sobre a queda do meu marido do nosso apartamento em São Conrado, mas para ser honesta eu teria que fazer o adendo sobre como fiquei triste com a não-morte deste traste velho (e bêbado), então achei melhor me abster. Chegamos à garagem, fomos pegar nosso carro e dei graças a Deus pelo fato de o rapaz não ter comentado mais nada, afinal, não queria passar mais uma noite da minha vida ouvindo piadas.
Moral da história: a verdade é sempre a mesma, o que muda são os pontos de vista dos observadores.
Moral da história II: Ser esposa de piadista é uma merda.