Minha vida tinha sempre o mesmo roteiro: ir para a aula, estudar, voltar para casa, estudar, ler inúmeros livros, decorar o Almanaque Abril. Eu era um intelectual, já procurando explicações racionais para os eventos mais emocionais neste nosso mundo criado por Deus (Deus? Eu não acreditava em Deus). Nietszche, Sartre, Hegel; era um niilista em formação que não acreditava em nada, muito menos no amor. O ano: 1985. A idade: 7 anos. A turma: 1a. série do 1o. grau.
Era um maravilhoso dia de inverno, fazia 4 graus na rua e não se podia ver um palmo à frente dos olhos, devido à neblina tão densa que se podia cortar com um faca. Ia para a escola a pé, sozinho, quando ouvi uma voz fina, baixa e bastante delicada chamar meu nome no meio das sombras: "Oi Daniel, posso ir com você?". Eu tinha 7 anos, morávamos em uma casa na esquina de um cemitério, e ao ouvir meu nome ser chamado 6:40 da manhã por uma mulher, tinha certeza de que era a Morte requisitando minha presença. Comportei-me dignamente: saí correndo em prantos com medo de ser levado para os domínios de Hades. Mas a voz gritou novamente: "Sou eu Daniel, a Fernanda". Então parei, pensando "que Fernanda?". Então ela se aproximou e pude ver seu rosto lindo, com olhos cor-de-mel, cabelo loiro e sorriso banguela. Era a Fernanda da minha sala, querendo ir para a escola comigo. Nada mais justo, afinal ela era minha vizinha.
Eu e Fernanda mantivemos durante todo o ano de 1985 um relacionamento estável, sólido e maduro. Quando estávamos sozinhos, conversávamos sobre as brincadeiras que faríamos em nossa rua e eu a enchia com meus conhecimentos sobre as figurinhas da Copa do Mundo do chiclete Ploc. Quando acompanhado por amigos, passava correndo por ela como se não a conhecesse e às vezes me unia aos meus chapas em gritos de "Piranha! Piranha!". Às vezes me sentia ameaçado por Marlon, aquele típico menino de primeira série que é maior do que todos os outros (nós o apelidávamos de "tripa-seca"), que tentava conquistá-la mostrando seus dentes de leite recém-arrancados em um potinho de filme fotográfico. Mas ela sempre resistiu às investidas. Fernanda foi meu primeiro amor.
Quando passamos para a segunda série, ela teve que sair da cidade. Acredito que tinha sido contratada pelo banco JP Morgan em Nova York. Minha primeira decepção amorosa. Entretanto, a vida segue, não é mesmo? Nos primeiros dias da segunda série, me apaixonei por Adrielle, uma gordinha escrota que contava mil mentiras sobre sua família e respondia com "são vinte e duas para as duas e meia" quando perguntada sobre as horas. Ela nunca me deu bola, mas Fabiana sim. Ela se impressionara com minhas estórias sobre ser faixa-preta de caratê (estávamos na semana seguinte à exibição de Karate Kid na Globo, foi uma semana extremamente violenta na escola, e de repente todos eram faixas-pretas em caratê) e se apaixonara por mim. Minha imitação de homem-aranha, que consistia em vir correndo e me pendurar no muro da escola usando apenas um pé e uma mão, contribuiu ainda mais para o florescimento de seu amor por mim. Mas eu gostava de Adrielle. Gorda escrota. Foi minha segunda decepção amorosa.
Os anos seguintes passaram-se sem grandes amores. Decepcionado, não queria mais saber das mulheres, havia decidido cuidar apenas do intelecto. Então ocorreu um grande trauma em minha infância: minha familia se mudou para o Nordeste. Cidade nova, vida nova, mulheres novas, por que não? Se as sulistas não haviam tornado feliz meu coração, quem sabe as nordestinas não poderiam?
Era difícil para mim, catarinense radicado no Paraná, entender o que diziam os meus novos (e novas) colegas, mas quando Alisson chegou para mim e falou: "A Marcelle está a fim de você", é claro que entendi de primeira que era meu magnetismo animal funcionando novamente. Eu já era bonito naquela época: usava óculos de grau redondos, um cabelo gigantesco que parecia um capacete de fórmula um, bermuda e meias estendidas até à metade das canelas. Seguindo-se à declaração anterior, Alisson completou: "Fica aqui até mais tarde e mete a vara nela, come o Xibiu dela!". Não entendi exatamente o que ele queria dizer, fui pra casa e lá, ponderando bastante, decidi me apaixonar por Marcelle. Mas não tivemos futuro, ela usava calças muito curtas que faziam com que as outras meninas perguntassem constantemente se ela estava indo pescar ou pegar frangos. Isto me envergonhava, e terminei tudo. Mais uma decepção amorosa.
Me tornei uma pessoa volúvel sentimentalmente. Na seqüência, me apaixonei por Aline. Depois por Fabiana Dória, Flávia, Janaína Lopes, Virgínia e Vanilma. Minha paixão por Vanilma causou furor em todo colégio pois meu voto para "Rainha do Milho" foi dado publicamente para ela, um escândalo sexual como se costuma ver nos governos democratas. Houve especulações, brigas, gritaria, e todo o assédio da imprensa acabou com nosso relacionamento que já durava, àquela altura, uma semana e três dias.
Não podia mais suportar tantas decepções. Deixei as mulheres de lado e passei a me dedicar apenas aos meus livros. Foi um sábio caminho a seguir, pois os livros não brigam entre si, não fazem fofoca, não ligam para você; além disso, você pode colocar todos os livros que você já leu em uma mesma estante que eles não vão brigar. Mas não posso negar que aprendi várias lições: com Fernanda, aprendi a não ser uma pessoa com ela e outra com os amigos; com Adrielle, aprendi a não me relacionar com gordinhas escrotas (anos mais tarde tive um reforço neste aprendizado); com Fabiana aprendi que mulher gosta de homem que dá porrada; com Marcelle aprendi que mulher pode até não ser bonita, mas tem que saber se vestir; com Vanilma aprendi a não fazer demonstrações públicas de amor. Com todas estas lições na cabeça, agora sei examente o que preciso fazer para escolher as mulheres com as quais me relaciono: a que tiver melhor bunda, leva.