Era 1989. Noite. O vento gelado cortava a pele e chegava aos ossos. Andando pela Potsdamerplatz, corria para não ser atingido pela neve, um corrida silenciosa pelas lindas ruas de Berlim.
Bah, mentira. Era 1989 e era noite. Mas não havia vento, e sim maresia. Não havia neve, mas sim, maresia. Eu não estava correndo, estava dentro de um carro, e um cheiro nauseabundo dominava o ambiente. Sim, era a maresia. Para aliviar um pouco a situação, havia também calor. Muito calor. Ah, e uns 80% de umidade também. Eu já mencionei o cheiro da maresia? Não era Berlim, era Maceió-AL. Junto com as sensações climáticas e olfativas, havia também muitos estímulos visuais: cantores decadentes em bares decadentes, vovôs com a barriga nos pés e vovós com o umbigo entre os seios passavam de mãos dadas, entremeados com negões vestidos com o traje oficial da cidade: sem camisa, sem shorts, apenas tênis sem meias, uma sunga azul com uma bola de meia enfiada no saco, um maço de Derby enfiado do lado da sunga, a sunga enfiada no rabo, enfim, era uma coisa enfiada na outra, o que por fim dava a todo o traje um aspecto bastante homogêneo.
Eu estava lá, firme e forte, relevando todos os problemas do parágrafo acima e mais um: meu pai, homem dotado do domínio da ciência do "pensar atravessado", havia comprado um carro novo, um Escort XR-3, esportivo, vidros escuros e teto solar, uma beleza. Como eu imediatamente reconheci, pelo fato de a minha irmã estar sentada com o joelho na minha boca e os pés no teto e pelo fato de a minha mãe estar gritando com meu pai enquanto tentava acomodar meu irmão mais novo, um excelente carro para se andar quando sua família é composta de 6 pessoas. Ainda assim, eu era uma pessoa que acreditava na vida, afinal, apesar de todas aquelas dificuldades, iríamos fazer um programa em família: ir ao parque fodido instalado na cidade. Para mim, naquela época e morando *naquela* cidade, um parque fodido era a melhor opção de entretenimento disponível. PlayCenter, em SP? Sonho! Disneyworld? Não, eu acreditava firmemente que visitar a Disney era só para os predestinados por Deus e que levassem uma vida de acordo com os ensinamentos do Evangelho.
Chegamos ao parque. As luzes, os sons, as crianças, a roda-gigante, o carrinho bate-bate, o minhocão, o trem fantasma... era tudo... tão... lixo. Os brinquedos eram sucata da Segunda Guerra Mundial. Os funcionários estavam tão animados quanto uma população vivendo uma epidemia de varíola. Mas eu não me importava, eu ainda acreditava e isto era o que contava.
Puxei meus pais pelo braço e fomos a um brinquedo chamado Xícara Maluca. Não me parecia haver nenhum perigo, pelo contrário, apenas algumas crianças passeando em círculos dentro de simpáticas xícaras coloridas. Pedi a meu pai que pagasse a entrada, sentei uma xícara só minha e fiquei fazendo pose de quem está completamente com o controle da situação. O brinquedo começou a girar, e tudo estava bem: passava por meus pais entediados e dava-lhes tchau, dava tchau para os outros meninos e fazia poses idiotas. Eu era o Deus da Xícara Maluca, senhor completo e total do meu território. Então pronunciei uma curta frase que me proporcionou momentos bastante "desconfortáveis": "Ah, mas tá muito fraquinho". Ainda hoje, em noites de pesadelos e insônia constantes, me pergunto: POR QUE FOI QUE EU DISSE AQUILO? Nem bem terminei a palavra "fraquinho", e apareceu um crioulo de 1,95m de altura, operador do brinquedo, e foi a última coisa que eu vi. Depois disso, tudo começou a girar, o rosto do meu pai se misturava com o coqueiro, que se misturava com o negão, que se misturava com o chão, que se misturava com... opa, o que era isto? Sinto um gosto ácido na boca e um incômodo na garganta...era meu estômago pedindo passagem e se precipitando pela minha boca afora. Eu já não sabia mais o que era o que, e chorava e berrava e fazia gestos como um boneco biruta, pedindo para parar aquela coisa. Parou. Saí. Vomitei. Simples assim. E ao ver meu pai rindo, vomitei de novo. E quando olhei, todo o parque ria de mim. Então, humilhado, vomitei de novo. Eu ainda acreditava na vida, pero no mucho.
Fui ao banheiro me limpar, e de lá saí com o orgulho ferido e alma meio limpa, meio suja. Depois de alguns passeios menos perigosos, cometi aquele que considero o maior erro da minha vida:
- Pai, o que tem naquele trailler?
- Qual trailler?
- Aquele escrito "Conga"!
- Vamos lá que eu te mostro.
Crente que não passaria por maiores perigos naquela noite, topei o convite e fui. Entrei com meu pai no tal trailler, sem saber o que me esperava. Dentro, um local escuro com um vidro separando o local onde estávamos em pé de uma saleta com luz fraca. Dentro, uma mulher fazia experiências em um laboratório fuleiríssimo. Fechou-se a porta. Do alto de minha bravura e coragem, tremi, quase vomitei de novo, mas agüentei. Começa uma música suave, e a doutora lá fazendo suas experiências, e eu ficando cada vez mais tenso. Dali a pouco, a mulher derruba um frasco sobre si. Então começou a ganhar pêlos cada vez mais espessos e a se debater. Quase me borrei de medo, mas estava agüentando firme a parada. Mas quando o narrador começou a gritar "CALMA DOUTORA! CALMA DOUTORA!", aí é que a coisa ficou boa. Na mesma hora, uma luz estroboscópica começou a piscar, o vidro caiu e, MEU DEUS!, me soltam um gorila peludo dentro do trailler minúsculo enquanto o narrador gritava palavras de desespero. Ele e eu. Gritei tanto que parecia um porco sendo escalpelado vivo. Ê beleza! Gritava e me debatia como se não houvesse amanhã. Tentei de tudo: chutar o macaco, uma cotovelada no saco de um senhor que estava ao meu lado, me jogar contra a porta, me jogar no chão, correr e me atirar contra as paredes na esperança que elas cedessem. Em questão de segundos, tudo parou, e voltou a normalidade. As luzes foram acesas. "Normalidade" é um conceito meio difícil de ser explicado aqui, pois eu estava deixado no chão berrado, imaginando que todos estavam fazendo o mesmo, mas ... hm... não, não estavam. Durante todo o tempo, as pessoas estavam rindo do meu pequeno show de exposição extrema de sentimentos, e novamente, em menos de meia hora, lá estava eu sendo humilhado na frente de todos novamente. Meu pai me ergueu, rindo. A doutora ria. As pessoas riam. Até o maldito gorila ria.
Eu não podia acreditar naquilo. Um parque fodido, instituição responsável pela diversão de 10 entre 10 de crianças nos anos 80, havia conseguido me humilhar duas vezes na mesma noite. Eu não podia acreditar naquilo, e nem em mais nada. Havia me tornado um cético.
Anos depois, já um jovem adulto em plena ascensão profissional, fui sido contratado por uma empresa que estava fazendo e acontecendo no mercado. Tudo era fashion, tudo era lindo, tudo era dinheiro rolando, tudo era azul. Entretanto, tudo era italiano também. Coloquei minha fantasia de gorila e um cartaz "Eu já sabia" em cima da minha baia, e fiquei assistindo ao mundo acabar. Afinal, ser cético tem suas vantagens.