Eu, como antropólogo e sociólogo formado em mesa de bar, sempre que possível gosto de observar o comportamento das pessoas ao meu redor, para estabelecer comparações, identificar características, confrontar perfis. Isto é claro antes de eu ficar levemente alcoolizado, já que depois que isto acontece eu só sei usar meus conhecimentos para estabelecer mulheres-alvo para o flerte, identificar mulheres das quais correr e confrontar com outros machos pelo direito de paquerar as mulheres. (Nota: para que o leitor melhor identifique exatamente o ponto em que isto acontece, é o momento no qual você chega e *pensa* que está falando para a menina: "Oi, tudo bem? Meu nome é Daniel, e o seu?", mas na verdade está falando "Oiiiiiiiiioooooooooomeaaaaaaanieleeeeeeeoeuuuuuuu?").
Como todos sabem, me mudei para o Rio de Janeiro há oito meses, sendo os cariocas então os alvos favoritos das minhas astutas observações científicas.
Em meus últimos estudos, me dediquei a diagnosticar um interessante espectro da personalidade carioca: a incrível capacidade dos nativos da Cidade Maravilhosa de armar barracos. Não, não são discussões leves, ou confronto de opiniões. São aqueles barracos homéricos, gritaria, confusão, xingamentos e gritos de "ai, vou passar mal".
Forçando a minha precária memória, me lembro de ter presenciado ao menos um barraco por dia em todos os dias que passei no Rio de Janeiro desde minha mudança.
Todas as situações cotidianas podem ser geradoras de barraco. Exemplificando: o fato de o motorista de um ônibus buzinar para um carro que acabou de lhe fechar gera um barraco do tipo "AEEEEEEEEE MOTORISTA, TOCA MUITA BUZINA HEIN? INCOMODANDO TODO MUNDO, NÃO TEM PACIÊNCIA NÃO?". Se o mesmo motorista é obrigado a frear forte para evitar um acidente, logo aparece uma mocinha vindo lá de trás com o dedo em riste: "O senhor não sabe dirigir não? Não tem consciência do que está fazendo com as pessoas lá trás?". Vale lembrar que o típico barraco carioca já vem com auto-reply, ou seja, a pessoa insultada automaticamente já está "logada" no mesmo barraco mesmo contra a sua vontade.
Alguém não gostou do seu trabalho? Não, isto não é possível, o que acontece é que "neguinho tá tentando me foder, eu sei, ele vive fazendo isso desde que entrou na empresa, ele não vai com a minha cara, vou lá tirar satisfação com esse palhaço". Você enfia seu cartão do banco no buraco errado do caixa eletrônico: "ARRRRRRRRRGH A MÁQUINA COMEU MEU CARTÃO, É UM ABSURDO COMO ESSES BANCOS DESRESPEITAM A GENTE NESTE PAÍS".
Até em enterro carioca arruma barraco: "AIIIIIII MEU DEUS, COMO VOU VIVER SEM ELE? AI MEU DEUS ME LEVA COM ELE, ME LEVA COM ELE!".
Uma outra característica forte do barraco carioca é que, em menos de 5 segundos, já se forma um séquito de seguidores ávidos por um escândalo de proporções épicas.
Intrigado após presenciar tal fenômeno centenas de vezes, resolvi estudar o assunto mais a fundo, tentar descobrir o motivo, causa, razão ou circustância que leva os cariocas a ter este tipo de atitude.
Mas o meu conhecimento científico enquanto sóbrio é zero, logo eu desci ali no bar e tomei um choppinho, durante o expediente. Hoje, em vez de cientista humano, virei um biólogo, então a única explicação que eu encontro para a personalidade barraqueira das pessoas é esta: mutação genética. Tenho absoluta certeza que, se feita a pesquisa certa, serão encontrados na molécula DNA dos cariocas não 4, mas 5 bases hidrogenadas: tinina, guanina, adenina, citosina (normais), e a barraquina. Como esta é exclusiva dos habitantes aqui da região, isto configura também o fenômeno de isolamento genético, fato que explica que as pessoas dos outros estados do Brasil tenham comportamento normal em relação à capacidade de fazer escândalo por nada.
Um fato curioso é que a maioria (cerca de 99,7%) dos barracos são gerados por um motivo comum: nada. Sim, nada. Quando há motivo pelo qual um catarina como eu faria um barraco, nenhum carioca se apresenta. Estranho, concordam? Quando beber mais chopps, irei ao encontro de algum especialista em legislação de nível municipal, pois tenho certeza que encontrarei uma portaria, um decreto ou norma que institua que os cariocas têm o direito legal de fazer um barraco por dia sem motivo algum. Então me naturalizarei carioca para me beneficiar desta eventual lei, podendo aprontar barracos diários e ver qual é o efeito que isto tem sobre a minha personalidade. Quem sabe eu não fico mais relaxado?

